• André Vendrami

HQ ‘O Outro Lado da Bola’ é – mas também poderia não ser - uma ficção sobre homofobia no futebol


Há alguns dias, fui apresentado a uma história que me deixou empolgado em dividi-la com mais gente e por isso vamos falar sobre o assunto aqui. O nome dela é O Outro Lado da Bola, HQ de Álvaro Campos e Alê Braga com ilustrações de Jean Diaz, lançada em maio deste ano pela Editora Record. O tema empolga porque mexe em um vespeiro de temas muito importantes e necessários de serem discutidos neste momento de transformação – e porque não dizer, retrocesso – que o mundo vive.


Homofobia no futebol, assassinato, pedofilia, negociatas, corrupção e vida no armário são alguns dos assuntos tratados na trama protagonizada pelo astro dos campos Cris. Adorado por toda a nação, o jogador o Alvinegro Paulista – qualquer semelhança com um dos maiores times de São Paulo deveria ser, mas não é, coincidência – é quem tem sua vida retratada e permeada por cenas que envolvem todo o tipo de cenário acima descritos.


Cris é idolatrado por todo o país por sua atuação dentro e fora do campo. Seus feitos com a bola o levarão ao patamar de melhor jogador e gerações se inspiram nele. Porém, o rapaz vive uma vida dupla. No gramado, é heterossexual, precisa agir como o macho que sua torcida espera que ele seja, como seus patrocinadores e dirigentes esperam que seu desempenho de “homem” se reverta em lucro e tudo mais. Em casa, Cris tem um namorado que não pode ser socialmente apresentado como tal e sonhos que o futuro não permitirá que eles cumpram juntos. A homofobia mata o rapaz e é aí que história de fato começa.


Após a morte do namorado, Cris decide que não vai mais viver no armário e diante das câmeras da TV se assume gay. O mundo do jogador, a partir desse momento, passa a ser um reflexo da descrição que André Rizeck faz na orelha do livro. “Existem padeiros gays, jornalistas, advogados, taxistas, farmacêuticos gays. Por que não haveria, aos montes, jogadores gays? Isso diz muito sobre o esporte que quase todo brasileiro ama e que está cheio de preconceitos desde a nossa infância”, aponta o jornalista.


Obra é uma ficção que faz o leitor refletir sobre o quão real poderia ser a história contada

Na trama de Álvaro Campos e Alê Braga, Cris é o responsável por desnudar e revelar sem dó os bastidores do futebol. Com seu outing, não só sua sexualidade é exposta, mas também a verdadeira face dos seus fãs, a hipocrisia da sociedade e do esporte machista e preconceituoso, assim como caem por terra as máscaras e atitudes de fachada das agremiações.


Em suas 216 páginas, O Outro Lado da Bola faz refletir. O leitor se pega pensando se está realmente lendo uma história de ficção, tão real e próximas as situações descritas lhe parecem. Afinal, os jornais, sites e noticiários estão repletos de histórias como aquela. Os comentários nas redes sociais e nos portais de notícias exalam a mesma podridão homofóbica sentida ali. Cada um de nós, gays e atletas – dessa família Unicorns Brazil ou tantos outros grupos esportivos LGBT+ pelo Brasil –, somos, de uma forma ou de outra, um pouco Cris. Vale muito a leitura!


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