• André Vendrami

Gay, pai e muito feliz: uma série de histórias de amor III


“O João me devolveu o Dia dos Pais. Desde a morte do meu pai, a data foi banida do meu calendário e agora voltou a ser divertido. Meu maior presente é o amor que ele tem por mim, os abraços, os beijos, os carinhos, os desenhos e tudo mais que ele faz todos os dias. Meu maior presente tem sido todas as vezes que ele me empurra para lidar com as minhas dificuldades, minhas fraquezas, meus medos, minhas limitações e me obriga a ser um homem melhor, um cidadão melhor, um pai melhor”, diz o jornalista gay Érico Aires, pai do João, de 4 anos, do Tod, um cachorro de 7, da Tuca, uma gata de 4, e da Zuma, uma cadela, de 2.


“A história mais marcante, na pele inclusive, aconteceu no Dia das Mães de 2017. Teria uma festinha na escola em comemoração e isso já me irritou. Disse que não participaríamos. Aí, o Luciano deu a ideia de perguntar ao Allan se ele queria participar. Ele prontamente disse que sim. Baixei a guarda, fomos para o evento e foi uma experiência e tanto ver os dois morrendo de orgulho de ter os pais representando a figura materna. Terminada a festa, ganhamos um bilhetinho precioso: “abraço de pai - a única coisa que quanto mais apertado, mais alívio dá”, descreve Rafael Escrivão, casado com o também arquiteto Luciano Rodrigues, que hoje são pais do Allan, de 12 anos, e do Davi, de 4.


Assim como eles, muitos gays e bissexuais são pais e tem um relacionamento incrível com seus filhos. Cada um com uma história mais emocionante que a outra e com muito amor envolvido. É sobre isso que a gente vem falando por aqui em uma série de posts neste final de semana em que comemoramos o Dia dos Pais.


“O desejo de ser pai sempre foi presente em mim. Tive um pai incrível faleceu quando eu tinha 16 anos e tinha o desejo de resgatar a nossa relação interrompida através de um filho. A decisão por adotar era a mais sensata. Não queria necessariamente um recém-nascido, não tinha essa necessidade de ter o meu nariz e, sobretudo, eu não queria um filho para pagar pensão para a mãe e ir vê-lo só de 15 em 15 dias. Eu queria ser pai o tempo todo, por isso a adoção legal era a melhor opção”, conta Érico.


“Como casal, o assunto da paternidade surgiu bem cedo, bem antes de casamento, inclusive. Até nome as crianças já tinham na nossa cabeça: seriam o Cadu e o Mathias”, diz Rafael, que junto com o marido, mantém um projeto chamado Dois Pais, no qual retratam o cotidiano da família desde o início do processo de adoção. “O blog nasceu como um diário de bordo. Sentíamos falta em ler algo mais humanizado, uma percepção da ansiedade, do choro, do afeto. Líamos muitos trâmites e visões frias. A ideia cresceu, abriu muitas portas e papos”, comemora Rafael.


“O nosso processo de adoção foi repleto de ansiedades, mas supertranquilo. Um período importante de amadurecimento da ideia de ser pai, de criar filhos, das especificidades de uma adoção. Tivemos um apoio superespecial e irrestrito das técnicas do Fórum - psicólogas e assistentes sociais - que nos deram todo o suporte técnico e emocional para darmos cada passo do processo como um todo. Outro ponto fundamental em nossa história foi a participação em grupos de apoio. No nosso caso, participamos do Acolher, uma experiência bem rica de troca de informações e relatos que seguram um pouco da ansiedade e nos deixa com mais pé no chão e menos formatado ao que lemos na bibliografia do assunto, na maioria das vezes muito técnica e fria”, relata o pai do Allan e do Davi, que chegaram à família em novembro de 2016.

Da esquerda pra direita, a família formada por Luciano, Allan, Davi e Rafael

Vai na fé!

Foi com um empurrãozinho da mãe que Érico ganhou coragem para transformar seu sonho de ser pai em realidade. “Eu estava ficando velho e o casamento ideal, a segurança financeira, a estabilidade profissional não vinham. Daí, minha mãe virou e disse ‘nada disso vai acontecer nunca! chega de esperar, senão você não vai aproveitar a criança!’. E ela tinha razão. Fui à Vara da Infância e perguntei ‘sou gay e solteiro, posso adotar?’. A funcionária deu uma risada e disse ‘claro! O processo é intenso, cheio de etapas, mas não deve ser demorado, não tem porque ser demorado. Você entrega os documentos, passa por entrevistas, visitam a sua casa e finalmente montam um perfil da criança que você deseja’”, revela o jornalista de 43 anos.


“Esse foi meu momento mais intenso, um exercício de autoconhecimento, afinal decidir a raça, o gênero é fácil. Difícil foi delimitar, definir se eu tinha capacidade de cuidar, acarinhar, me responsabilizar e amar uma criança mais velha, com uma doença incurável, com uma deficiência física ou mental, com passado de violência ou abuso de drogas. Foi uma imersão dentro de mim, nos meus medos, nas minhas limitações, nas minhas sombras para definir e aceitar aquilo que eu estava botando no papel, afinal uma vez que meu filho chegasse, ele seria meu filho para sempre”, explica ele que, oito meses depois de entrar na fila, recebeu um convite para finalmente conhecer o João, com dois anos de idade.

Para Rafael e Luciano, a surpresa veio no convite para conhecer não uma, mas duas crianças. Ainda antes de completarem 30 anos, os jovens já seriam pais de dois irmãos que chegariam mais rápido do que o esperado. “O Allan e o Davi receberam muito bem a ideia de terem dois pais e se entregaram, de fato, a essa nova página nas vidas deles e nossas. Eu acredito que não tenha grandes diferenças entre se ter pais hétero ou homossexuais. Sou bem chato com rotina, cuido da comida, roupa, vamos às reuniões da escola, estudamos e brincamos juntos. A principal diferença deles em relação aos amigos é mesmo em relação à idade dos pais, bem mais novos que a dos pais dos amigos deles”, diverte-se Rafael.


Identificação imediata

“Foi ali que a nossa viagem de amor começou. Naquele mesmo dia eu fui conhecê-lo: um trocinho de 2 anos e pouco, ressabiado, de Escorpião, careca, magrelo e peralta. Passei um mês indo todos os dias dar jantar para ele e daí ele veio para sempre. Eu me tornei pai no dia 24 de setembro de 2016, quando o João, ainda no abrigo, expulsou um outro menino que veio sentar no meu colo. Ele deu um grito ‘larga do meu papaiê!’. Ele nunca tinha me chamado de papai, foi a primeira vez, enchi os olhos d’água, minha alma se encheu de luz e a vida mudou”, emociona-se Érico ao falar sobre a relação com o filho.


O amor também chegou de primeira na casa de Rafael e Luciano. “O Allan, mais velho, deu uma aula e tanto de respeito e diversidade. Sempre nos respeitou e nos abraçou de forma irrestrita. Já o Davi, como chegou muito cedo, logo que fez 3 anos, passou por um momento de, digamos, descobertas. Começou a tentar mamar na gente como se fossemos mães dele, como se ele fosse ainda bebê. Aí, tivemos um trabalho de muita conversa para explicar da nossa diferença em relação às outras famílias e para liberar ele e o irmão a sentirem, sim, saudades ou falta da mãe. Não temos como e nem temos o desejo de suprir essa falta. Respeitamos o papel dela e a história deles como família e isso é o que importa: que a memória deles seja respeitada para dar espaço e abertura para que a nossa história possa entrar”, explica o arquiteto.


Por ser pai solteiro, tive os benefícios legais que normalmente uma mulher tem. Gozei de licença maternidade e tenho auxílio-creche. Aproveitei esse período para apresentar minha vida para o João: levei ele para Brasília, onde nasci, depois para a fazenda dos meus avós no Jalapão, em Tocantins, onde ele andou a cavalo, comeu manga pela primeira vez na vida, nadou no rio, correu atrás de galinha, sapo, bezerros e depois fomos para a casa da minha mãe, que nessa época morava em Natal (RN). Passamos dois meses na praia e ele virou um pitoco nego-loiro peixinho do mar”, derrete o papai jornalista.

João e o paizão, Érico Aires, durante a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo

Educação e rotina

“Acho que cada pai é um pai diferente, independentemente de ser hétero ou gay. Reproduzimos um pouco daquilo que vimos nossos pais fazerem, trocamos experiencia com nossos parceiros. O fato de eu ser solteiro influencia também, afinal é só a minha referência para tudo. Sou meio pai em alguns momentos, meio mãe em outros e o João vai aprendendo a lidar com isso”, explica Érico.


Na família de Rafael, Luciano, Allan e Davi – que fizeram parte da campanha de Dia dos Pais da Reserva neste ano - a coisa não é também diferente. “Aqui a coisa funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, não tem fim de semana, feriado, férias. É bem corrido e super gratificante. Acordamos cedo e, logo que levanta, o pequeno já fica na minha asa querendo me ajudar a preparar o café da manhã. Levamos o Davi pra creche e o Luciano sai para o trabalho. O Allan já se vira mais. Ele tem algumas atividades extracurriculares pela manhã e aulas na escola, à tarde. No final do dia, busco o pequeno na creche e duas vezes por semana levo para uma aula de esportes onde ele interage bastante e gasta energia, graças a Deus. As noites ficam por conta dos estudos, desenhos e historinhas. Como os quatro adoram passear, os finais de semana são sempre agitados”, descreve Rafael.

“Eu levanto às 7 da manhã, acordo o João, arrumo ele para a escola e dou o café da manhã. Depois, só encontro com ele quando volto do trabalho ou quando estou em casa às 14h, quando ele volta. Todos os dias dou a janta (para todos eles), escovamos os dentes e boto ele para dormir, impreterivelmente, na hora da novela das 19h. Ele dorme sempre deitado no meu peito, todos os dias desses 2 anos e meio! Daí, boto ele na cama dele, mas todas as noites eles todos acabam indo para a minha cama. Essa guerra eu já perdi, não me dou nem mais ao trabalho de acordar. Duas vezes por semana levo para o futebol e no sábado para a natação”, diverte-se o jornalista contando sobre o como é o dia a dia com o filho e a bicharada.


E assim como Rafael e Luciano mantém o Dois Pais, Érico entrega as peraltices e sagacidades do João por meio de suas redes sociais. No Facebook, até hashtag própria o mocinho já ganhou. “Convido todos a me seguirem nas redes sociais, João é uma usina de coisas engraçadas. Criei até uma hastag #aventurasdeumpaisolteiro porque ele apronta o tempo todo. Imagine que até brigar com um motorista da Uber ele já brigou e eu tive que apartar. Ele acusou o rapaz de ter avançado o sinal e o motorista achou ruim que uma criança de 4 anos dissesse que ele avançou o sinal”, ri o pai.

Preconceito

Tanto Érico quanto Luciano e Rafael relataram que nunca passaram por situações homofóbicas junto dos filhos. Mas a cor da pele já foi motivo para momentos de preconceito racial e eles tiveram que ter jogo de cintura. “Por sermos gays nunca tivemos problemas, mas pela diferença de pele, quase tivemos que enfrentar racismo por duas vezes. Mas resolvemos, antes de passarmos por qualquer constrangimento, sair do lugar”, revela o casal.


“Nossos filhos nunca precisaram entrar em briga por ter pais gays, não me recordo de termos uma experiência mais seria em relação a isso. Mas tivemos que conversar muito com o Allan pra ele entender, ou pelo menos tentar, os motivos de não termos nos casado na igreja, por exemplo”, continuam.


“Já tive problemas com uma escola onde queriam que ele cortasse o cabelo. Mudei o João de colégio. Não tenho tempo para gente racista e não quero deixá-los educar meu filho”, destaca o jornalista. “Ele tem só 4 anos, não sabe o que é ser gay, o conceito em si, a ideia por trás do termo. Mas sabe que o papai namora meninos. Já até tentou arranjar uns namorados para mim, inclusive. Ele perguntou para um paquerinha se ele não queria vir morar aqui em casa! Acho que ele percebeu que, com mais um papai, a vida dele fica mais fácil. Eu sou um pouco bravo, sabe?”, conclui Érico.

João e Érico em viagem ao Jalapão, no Tocantins, quando o pequeno tinha recém-chegado à família

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