• André Vendrami

Gay, pai e muito feliz: uma série de histórias de amor II


“Meu coração está apertadinho porque não vou vê-la agora. Eu sou outro cara depois que me tornei pai”, emociona-se Henrique de Carvalho, pai da Marina, advogado e gay que, por conta de a filha morar no exterior com as mães, não passará seu segundo Dia dos Pais com ela. “Para mim, a paternidade mudou muita coisa. Sobretudo por saber que tem alguém que depende de mim, de quem eu sou referência. Tipo, ter que voltar vivo dos rolês porque tenho minha filha, sabe? E tudo isso se liga a um amor que eu nem imaginava sentir”, continua ele.


O psicólogo Marcelo Fender também não irá passar o dia dos pais com o Murilo. Com seus dois pais separados, desta vez o mocinho de 8 anos estará no Rio Grande do Sul enquanto Marcelo ficará em São Paulo. Mas a relação entre os dois em nada se abala pela distância momentânea. Marcelo derrete-se todo ao falar da criança que adotou em 2010 – em um dos primeiros casos de adoção por casais gays do Brasil – com apenas um dia de vida. "Ele me deu uma almofada de emoji com olhinhos de coração de presente. Quando ele não sabia ainda ler, nós conversávamos por emoji. Ele mandava um, eu mandava outro. Ele me deu essa almofada e disse 'pai, eu escolhi essa porque você gosta e porque um coração sou eu e o outro é você'. Esse foi o melhor presente que ele me deu de Dia dos Pais: conseguir contemplar a nossa união num emoji de olhinhos de coração”, revela.


Assim como os dois, muitos gays e bissexuais são pais e tem um relacionamento incrível com seus filhos. Cada um com uma história mais emocionante que a outra e com muito amor envolvido. É sobre isso que a gente vem falando por aqui em uma série de posts neste final de semana em que comemoramos o Dia dos Pais.


E comemorando a data, o educador físico Daniel Pacca e o fisioterapeuta Francisco Rodrigues – donos de uma escola de natação - aproveitarão muito o domingo com o pequeno Caiuã, hoje com 8 anos e que chegou para a fazer a alegria do casal quando tinha 2 anos e meio. “Uma instituição de crianças entrou em contato comigo perguntando se podia dar aulas como voluntário pra uma criança com autismo e foi aí que tudo começou. Conheci o Caiuã e aceitei dar as aulas, contudo a instituição não tinha como levá-lo até a escola, então meu marido se ofereceu pra buscá-lo e entrar com ele nas aulas porque as crianças entram com um responsável pra ajudar. Foi amor à primeira vista. Já pedimos pra passar o final de semana com ele em casa e ele simplesmente se apoderou da casa como se tivesse nascido lá. Quando o levamos de volta e vimos seu sofrimento, percebemos que era um caminho sem volta”, lembra Daniel.


Murilo, hoje com 8 anos, chegou à casa do psicólogo Marcelo Fender com apenas um dia de vida

A paternidade

“Sempre quis ser pai, desde muito pequeno. Antes de chegar à adoção, tentei vários outros processos como fertilização in vitro, inseminação artificial com uma amiga e não deu certo. Também tentei fertilização in vitro com óvulo e doação no útero da minha irmã, até entender que um filho a gente pari com o coração. E assim a adoção passou a ser a possibilidade de ter um filho aqui dentro de casa. Então, quando me casei, em 2006, não se falava ainda no país em adoção por homossexuais, nós fomos uns dos primeiros do Brasil a adotar e esse sonho meu e dele foi então se concretizando, até que o Murilo chegou em 2010”, resume Marcelo Fender sobre a realização do sonho.


Da mesma forma, o Henrique também sempre teve desejo de viver a paternidade. “Minha filha foi concebida por meio de inseminação artificial junto com duas amigas que queriam ser mães, assim como eu que sempre tive vontade de ser pai”, conta ele. “Nós conversamos duas vezes só, acho que já tínhamos tanta sintonia, sabe? Elas tinham vontade, eu tinha. Conversamos e ficou decidido. Foi uma mudança radical na minha vida porque nós gays raramente consideramos essa uma possibilidade porque na civilização judaico-cristã ocidental essa forma de organização não é entendida como possível porque rompe com uma lógica de casamento-sexo-procriação. Nossa família rompe com esse modelo e se baseia no amor exclusivamente”, afirma o advogado.


Já os pais do Caiuã sempre pensaram em adotar, mas tinha medo da burocracia. “Sempre tivemos a vontade de ser pais, mas tínhamos um pouco de receio quanto a todo o processo. Conversávamos bastante sobre o assunto. Queríamos uma criança com alguma deficiência, desejávamos que fosse Down. Nunca preenchemos nenhum papel pra entrar na fila de adoção, no nosso caso essa realidade aconteceu por obra de Deus”, explica Daniel. “Como ele não tinha pretendentes devido ao autismo, conseguimos uma adoção direta. Então resumindo: do dia em que conheci o Caiuã até sair a guarda e ele ir pra casa, o processo durou apenas 30 dias”, comemora o preparador físico.


“Uma criança muda a rotina de um pai em 100%. Nada é mais do jeito que já foi um dia. Então a rotina é acordar cedo, dar o café da manhã, no caso do Murilo, ele estuda à tarde, então tem que fazer dever de casa, preparar o almoço, arrumar para ir à escola, ajeitar o cabelo, aquelas coisas todas que se faz em casa. Eles não querem levantar para escovar os dentes porque nenhuma criança quer escovar os dentes, né? Então no novo arranjo familiar a gente acaba abrindo mão de algumas coisas para ir se adaptando à rotina dele de levar à natação, ao futebol, à escola, se é período integral ou meio período, enfim, é uma rotina nova, adaptada”, descreve o psicólogo sobre dia a dia da criação do filho.


O caso de Daniel Pacca e Francisco Rodrigues com Caiuã foi de amor à primeira vista

“Como somos autônomos, Francisco e eu sempre nos revezamos nos horários de trabalho. Então, nós não precisamos nos ausentar das nossas atividades profissionais para cuidar do Caiuã. Quando eu vou dar aula e o nosso filho não está na escola, ele fica com meu marido e vice-versa. Ele se adaptou muito bem à nossa rotina. A gente precisou apenas se adequar a algumas coisas porque o Caiuã faz tratamento fonoaudiológico, vai à APAE, faz aulas de surf, vai à escola, mas nada muito diferente da rotina de qualquer outra família que tenha um filho”, explica Daniel.


Já a Marina, por ser ainda muito novinha e morar fora do Brasil com suas duas mães, não mudou muito a rotina de Henrique de Carvalho por aqui. Mas o papai acompanha tudo praticamente em tempo real. “Acaba que eu a visito anualmente porque dou aulas, advogo e minha vida é bem corrida por aqui. Essa distância dói um pouquinho, mas faz parte, né? Eu falo com elas por vídeo, recebo fotos, estou sempre ligado”, conta ele.


Diversidade desde pequeno

Entre Caiuã, Marina e Murilo, o filho de Marcelo Fender é o único que já tem maturidade para entender um pouco a situação do meio LGBT+ em que vive. E o psicólogo revela que o pequeno, perspicaz que é, tira tudo de letra. “Eu tenho alguns recortes superinteressantes de falas do meu filho por ele ter dois pais gays. Ele me fala 'pai, um dia eu posso namorar uma mulher?' e eu digo 'pode, é claro que pode!'. Ele diz 'pai, não é verdade que a namora quem a gente quiser?' e eu respondo 'é isso mesmo, filho!'. Ele já vem de um lar onde a diversidade é contemplada desde que ele era pequenininho, então para ele é muito natural ver dois homens ou duas mulheres trocando carinhos, por exemplo”, afirma Fender, que estudou os desafios da paternidade adotiva por gays em seu mestrado.


“Tem também uma passagem da escola. Ele tinha uma escolinha sócio-interacionista e ele falou assim para uma amiguinha: 'quando crescer, vou namorar meu pai'. A menina respondeu: 'não, você não pode namorar o seu pai. Você pode namorar ou menino, ou menina. Mas seu pai não". E assim a gente vê que as escolas também já estão se preparando para receber esses núcleos homoparentais”, comemora.


E se para o menino as coisas são naturais, para os adultos, o que deveria ser ainda mais tranquilo, às vezes fica complexo. “Foi estranho para os meus amigos que não sabiam como se portar na frente do Murilo. E eu sempre disse 'pessoal, naturalidade! Quanto mais natural for para vocês, mais natural será para ele' e foi assim que ele aprendeu”, conta o pai. “Já passei por várias questões preconceituosas, inclusive com amigos gays. Do tipo 'não traga seu filho porque não é ambiente para ele'. Meu filho viaja desde muito pequenininho, então sempre nos aeroportos, quando alguém via a certidão de nascimento com os nomes de dois pais, vinha a próxima pergunta: 'é adotivo?', 'e a mãe dele?'. Daí a gente vê que o preconceito não é só por ser um pai gay, porque isso até gera um pouco de admiração nas pessoas, mas por ser uma criança adotiva”, pondera, contanto mais duas boas histórias em seguida.


“O Murilo nunca passou pela situação de ter que defender os pais de algum preconceito ou homofobia, algum enfrentamento social. Mas elas existem e acho que ele se posiciona como um filho. Quando alguém pergunta 'cadê a sua mãe?', ele responde 'não tenho mãe, tenho dois pais'. E quanto mais natural ele é, com mais naturalidade as pessoas vão tratar ele também”, diz ele.


“O meu filho adora futebol e eu detesto. Então, é muito comum que quando ele está em São Paulo eu convide meus amigos para jogarem futebol com ele e cuido só da parte do piquenique. Tenho amigos muito próximos meus que sempre jogam futebol com ele. Não é porque eu sou um pai que eu tenho que aprender a jogar futebol e não quer dizer também que porque não gosto de futebol eu vou ensinar ele a brincar de boneca. Que inclusive, ele brinca, se ele quiser. Ele pode fazer o que quiser. Acho legal deixar isso claro, viver num lar de diversidade contempla inúmeras possibilidades, que passam por meu filho poder ser livre para fazer o que ele tem vontade. Claro que dentro dos limites da educação, mas com apoio e informação tentando visar a boa formação”, conclui.

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