• André Vendrami

Gay, pai e muito feliz: uma série de histórias de amor I

Atualizado: 12 de Ago de 2018



“Foi bem emocionante ouvir o coração dela pela primeira vez. Eu tive esse negócio de ‘agora sou pai’ na hora do parto, quando vi a carinha dela pela primeira vez”. É assim que descreve a emoção de descobrir a paternidade o jornalista Rodrigo Vasconcelos. Bissexual, o pai da Gabriela, hoje com 7 anos, tornou-se pai de forma não planejada durante um namoro que durou 4 anos com a mãe da Gabi.


“É até engraçado. Eu nunca quis ser pai, mas depois que acontece, descobri que levo jeito e gostaria de ter mais filhos, mas dessa vez planejados”, avalia ele. “O mais bonito da relação com qualquer criança é perceber que elas não fazem nenhum juízo de valor para o exercício da afetividade. Apesar de ele ainda não compreender sobre as questões relacionadas à minha sexualidade, meu filho apenas vê em mim a figura da segurança e afeto. Para ele pouco importa minha cor, etnia ou orientação sexual”, conta outro Rodrigo, desta vez o Estrela, gay, analista técnico e pai do Davi, de 3 anos.


Assim como os dois, muitos gays e bissexuais são pais e tem um relacionamento incrível com seus filhos. Cada um com uma história mais emocionante que a outra e com muito amor envolvido. É sobre isso que a gente vai falar por aqui em uma série de posts neste final de semana em que comemoramos o Dia dos Pais.


“Certamente a relação entre um pai gay e seu filho tem uma grande vantagem na hora de construir algumas concepções, sendo a primeira delas o valor da diferença. Sendo gay é muito mais fácil construir noções de tolerância com a diversidade. Enfim, ser gay me ajuda a criar um filho cidadão muito mais preparado para coletividade”, explica Rodrigo Estrela sobre como vê a relação entre um pai gay e seu filho.


Para o Rodrigo jornalista, a construção dessa relação entre pais e filhos nessa condição é algo completamente natural. “É uma relação normal de pai e filha, eu acho. Desde que você seja um bom pai, não tem diferença em ser gay, bi ou hétero. Eu me espelho muito no meu pai. Ele é extremamente carinhoso, atencioso, sempre fez tudo o que podia por mim. Sempre falo que se eu conseguir ser 10% do que meu pai é pra mim, tenho certeza que sou um grande pai. E meu pai é hétero”, pondera.


Enquanto o Davi ainda não tem maturidade para compreender a orientação do pai, a Gabi já entende e sempre levou numa boa. “Pra ela é muito natural. Nunca precisei falar nada pra ela. Eu só agia, falava e conduzia minha vida normalmente e ela entendeu sem eu precisar explicar”, diz Rodrigo Vasconcelos.

Jill Castilho (embaixo) e Éder Serafim adotaram Kauan (direita), Eric e Beatriz

"Foi uma aproximação muito tranquila. Eu acredito que a criança absorve aquilo que ela vê, aquilo com o que ela convive. Para nós sempre foi muito natural, mas no começo eles não entendiam a nossa orientação sexual porque eles não tinham essa referência. Mas a partir do momento que nós mostramos a eles e trabalhamos essa educação com livros e outros métodos, eles compreenderam e foi tudo muito rápido. Coisa de dias, eles passaram 10 dias conosco e o fato de que eles iam ter dois pais foi completamente absorvido", conta o arquiteto Jill Castilho, que junto com o marido, o advogado Éder Serafim, adotou em 2016 o Kauan, o Eric, e a Beatriz, hoje com 10, 8 e 7 anos respectivamente.


Tudo se recompensa

E todo esse amor de pai doado retorna em forma de recompensa em um sorriso, em uma frase solta despretensiosamente pelo filho. “Certamente a hora de dormir tem sido um dos momentos mais especiais. No início, eu contava para o Davi as histórias dos livros, mas agora ele adora criar as suas próprias e pede que eu as complete. No final, temos uma narrativa exclusiva e única. Uma lembrança que me emociona muito é que uma vez fui buscá-lo na creche e fui até sua sala de aula trocar sua roupa, pois íamos viajar. Quando surgi ao lado de todos os seus coleguinhas, ele começou a dizer em voz alta, repetidas vezes e batendo no peito: ‘esse é meu pai, meu pai'. Eu me enchi de orgulho e fiquei com brilho nos olhos”, emociona-se Rodrigo Estrela.


A diversão também vem em forma de desenho no final da cartinha de amor ou nas risadas depois de um susto. “Nos finais de semana, a gente sempre gosta de assistir desenhos até tarde, então jogamos um colchão pra dormir juntos na sala por causa da TV. E eu amo receber as cartinhas que ela escreve, o desenho que ela sempre faz de nós dois no final”, entrega o outro Rodrigo, pai da Gabi.


E tem mais, porque ser pai também é se desesperar para depois gargalhar de si mesmo. “Uma vez no shopping, ela devia ter uns 3 anos, a Gabi entrou embaixo da saia longa de uma mulher para brincar de se esconder e eu nem percebi. Quase surtei achando que tinham sequestrado minha filha. Comecei a gritar, a mulher começou a rir da minha cara, levantou um pouquinho da saia e eu vi o pezinho dela. A Gabi saiu de lá dando gargalhada e eu passei a maior vergonha, primeiro por ela se esconder na saia de uma desconhecida e depois por gritar os seguranças, sem precisar”, diverte-se o paizão.


Nem tudo são flores

Mas ser pai gay muitas vezes também momentos difíceis. A homofobia é sempre uma sombra e a qualquer momento o preconceito pode aparecer. “A primeira vez que nós sentimos que íamos ter que lidar com situações desse tipo foi quando fomos conhecer as crianças. Na cidade onde elas estavam abrigadas, muitas pessoas não queriam que elas fossem adotadas porque somos um casal gay. Elas fizeram de tudo para que a adoção não acontecesse", revela Jill.


Rodrigo Estrela também já teve pedras como essa no seu caminho de pai gay. “Por eu ser um homem gay cis, a relação com o preconceito não é tão explícita. Lembro que, logo que meu filho nasceu, as pessoas ficaram curiosas em saber ‘como eu tinha conseguido ser pai’. Então era comum ‘investigarem’ a origem do meu filho com o intuito de saber detalhes da minha sexualidade. Ainda somos tão restritos em pensar a sexualidade humana que, se você for gay, todas as possibilidades ‘exclusivas’ no mundo hétero te são negadas. Uma vez uma pessoas do meu trabalho me perguntou se meu filho me chamava de pai e eu respondi ‘Não, ele me chama de Cher’, revela o moço.


Felizmente, nem todo o preconceito enfrentado conseguiu impedir Jill e Éder de formarem uma família

"A homofobia tem várias nuances, né? É um olhar, uma atitude. A minha família às vezes entra em um restaurante - eu, meu marido e nossos três filhos - e tem quem olhe com admiração, há quem torça o nariz, outras olham como se estivessem tentando entender... Estamos em um mundo onde impera a heteronormatividade, onde impera a raça branca, e eu tenho uma família inter-racial, formada por gays que tem filhos adotivos, ou seja, estamos sujeitos o tempo todo a, pelo menos, três tipos de preconceito e muitas vezes ele vêm de forma velada", concorda o arquiteto Jill.

© 2017 by Unicorns Brazil | CNPJ: 27746509/0001-34

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon